primeiro

Não sou boa leitora de mapas. Pouco me diziam as setas que apontavam ao Pavilhão Sul, e minha timidez territorial foi imediatamente esquecida quando resolvi perguntar os caminhos, os nomes, de onde vêm, o que fazem ali. Imediatamente já conversávamos sobre o curso, o design, a cidade do Porto, a chuva que pouco dá trégua, olhávamos os relógios, dá tempo pra mais um café, alguém diz. Mais tempo para mais uma pergunta, um comentário, uma curiosidade. De repente o sol, o calor inesperado, nós nos desfazendo das jaquetas, e na hora de subir, um susto ao ver a sala inteira. Nunca imaginei que éramos tantos. Passo rapidamente os olhos nos olhos de alguns e percebo o quanto somos diferentes, começam a falar e vejo a mistura de sotaques, idiomas, expressões, um português bonito, ágil, desenhado, poético. Alguém tenta um inglês tímido. Outros apenas sorriem.

Depois disso os professores, apresentações, instalações, muitas escadas, algumas surpresas, vinho do Porto e as primeiras risadas.

Ainda bem que não sou boa leitora de mapas.

o cheiro da blusa azul

Na escada do aeroporto pinto martins, sinto meu coração bater em todas as extremidades do meu corpo.
Tomo uma água, um café expresso, outra água. Quando o monitor avisa que o avião está pousando, penso em desistir, dou passos largos na direção contrária do portão de desembarque, sinto chover nos meus olhos. Paro, penso. Volto.
No vidro, vejo meu reflexo de quarenta anos depois da última vez que nos vimos, no aeroporto antigo, numa mesa em frente ao Palheta, nosso frescor dos vinte e dois anos, o choro solto. Ele não vai me reconhecer, ele vai aparecer nesta porta esperando a mocinha com o lenço na cabeça, penso tentando me convencer a desistir. Devíamos ter trocado fotos antes dessa loucura.
Mas não me mexo.
Não tive como não reconhecer os olhos grandes e castanhos que olhavam com curiosidade para cada senhora que aguardava seu viajante, os mesmos olhos grandes e castanhos que olhavam com curiosidade para cada parte do meu corpo, da minha pele, há tantos anos. Mas não consegui me mexer, não consegui acenar, gritar, correr para perto. Fiquei ali, parada, esperando. Até que os olhos grandes e castanhos encontraram os meus humildes olhos negros e pequenos, e imediatamente senti que ele sabia exatamente o que os meus olhos diziam para os dele. E ele veio com um sorriso nervoso e sem dizer nada me abraçou, e com meu rosto batendo no peito senti o seu coração. O cheiro do perfume sério tentava disfarçar o cheiro do corpo, mas imediatamente reconheci o cheiro que saía daquela blusa azul. Eu nunca esqueço um cheiro.
Ele toma a minha mão de um jeito meio sem jeito, meio sem graça, e saímos desajeitados do portão de entrada para pegar um taxi, que dirigir é um negócio que nunca me atrevi a aprender. Pegamos de volta a escada do aeroporto pinto martins, e senti meu coração bater em todas as extremidades do meu corpo.

serendipity

Quase todo dia o despertador precisa tocar três vezes. Entre atrasos e disposições, é preciso ter coragem pra encarar a dureza de levantar numa manhã fresca, dessas que não faz frio, mas que é necessário um lençol. E dentro das pequenas fascinações da vida, está a delícia de ignorar o despertador no primeiro alarme – ele toca, eu acordo, estico o braço e sinto a quentura do lençol pela marca do corpo dele, faço um movimento delicado, quase como se tivesse medo de assustar um passarinho. Ele acorda e, ao invés de levantar, ignora os sinais de que já é dia, sorri de olhos fechados, geme, me abraça, coloca a mão na minha barriga. E eu fico ali, imóvel, com pena de dormir de novo e perder essa cena que fica fotografada na cabeça, talvez a foto mais repetida que meus olhos registram, mas é a que eu gosto mais. O despertador toca de novo, trocamos desejos de bom dia e ele fecha os olhos, ressona, vira pro lado, eu abraço as suas costas até o despertador tocar pela terceira vez e a gente entender que é preciso reagir. Quase todo dia é essa novela. Confesso que, na maioria das vezes, a preguiça é minha. Mas quando é dele, aí são os
melhores dias.

O duro é ter que levantar.

serendipity: the faculty of making fortunate discoveries by accident.

hoje também é meu dia

A verdade é que convivo bem com ausências. E com a sua não foi diferente. Até porque nos encontramos várias vezes depois daquele dez de julho. Era tão real, os diálogos tão possíveis, que não posso chamar de apenas sonho. Era encontro. E era fácil. Eu tinha você ali, fazendo uma reclamação possível, tendo uma conversa possível, me olhando com um olhar ora severo ora terno. E quando eu acordava e via sua rede vazia, era menos ruim, doía menos: tinha te visto há poucas horas.

Agora nossos encontros são cada vez mais raros. Agora me pego recontando histórias nossas em voz alta, pra ver se não esqueço. E com o mínimo de esforço lembro a sua voz, o sorriso, ou revejo facilmente os cabelos brancos, as mãos pra trás, a postura dura, cantarolando sempre. Tenho a memória fraca para tarefas ordinárias, mas muito forte quando lembro de nós, nossos passeios, sua paciência e sua impaciência, nós nas caminhadas, nos shoppings, você sempre muito opinioso como o homem que escolhi pra casar. Minha maior dor é essa: não conheceste o homem que escolhi pra casar. E as vezes ainda me assusto porque olho pra ele e ele me lembra você: as mãos pra trás, a postura dura, cantarolando sempre.

Hoje falei de você de novo, por acaso. Uns amigos numa mesa, surge solto o seu nome, e aí me lembro, calada, da memória mais bonita. Pouco importa a minha idade, talvez oito, talvez dezoito, eu, sempre eu, no meio dos bancos da frente do carro, tentando escolher a música, alguma que nos agrada, outra que você detesta, outra que eu reviro os olhos, mas sempre música, sempre nós, minhas ironias, nossas risadas.

A verdade é que convivo bem a sua ausência. Mas isso, nem de longe, quer dizer falta de amor. E se você estivesse aqui, nisso que chamamos vulgarmente de vida, eu dançaria a dança que tanto recusei.

Feliz dia dos filhos que sobrevivem a ausência dos pais.

jeri

sobre se despedir

Daqui a pouco não seremos os esbaforidos das ladeiras de Alcântara. Não seremos nós os que esperam o ônibus de mãos dadas, nem os que sorriem pro cachorro que passa na calçada. Quando um casal passar em frente ao barbeiro acendando e sorrindo, serão outros, não mais nós dois. Nem serei mais a que pede 300g de queijo edam toda semana à menina dos frios. Minha casa não será mais a casa da Maria. Não teremos mais o sofá-cama dos fins de semanas preguiçosos, nem terei mais medo de derrubar a camisa ao pendurá-la no varal da janela. E assim percorro o olhar por cada pedaço da casa, já com saudade das coisas bonitas que vivemos aqui dentro, nós dois, algumas visitas, nossos almoços no chão da sala, nossos cochilos.

Viver em Lisboa foi diferente de tudo. Não foi uma relação de amor e ódio como eu tive em Fortaleza, nem uma relação de deslumbre sem afeto que tive com Dublin. É diferente. Foi bom o tempo todo. Me senti abraçada por esse azul que preenche o céu e os azulejos. Mas vou e não vai doer. E cada vez que dou adeus a um lugar, dói menos. A gente vai mudando, nosso olhar, nosso apego. Tudo muda.

Não sei mais se ainda tenho raízes, muito menos acho que elas estão aqui. Mas talvez eu tenha deixado cair uma âncora.

Há muito tempo não sou aquela da fila do pão de açucar.

restart

O primeiro post é sempre o mais difícil. E nem sei quanto tempo levou desde que escrevi aqui pela última vez, mas como sou profissional em apagar blogs, todo o arquivo se foi, e tou aqui começando de novo anos depois, sem saber direito se ainda sei ter um blog só meu e sem pretensão alguma além de servir de espaço pra eu jogar conversa fora comigo mesma, já que falar sozinha em voz alta é uma mania não muito bem aceita pela sociedade. E por isso evito.

Mas como o primeiro post supostamente deve começar com uma apresentação, acho que devo explicar que meu nome é Lívia, que chorei a primeira vez há trinta e um anos na capital do Ceará e que atualmente moro em Portugal, pois estou matriculada no mestrado em Design Gráfico e Projetos Editoriais que começará próximo mês na Universidade do Porto.

Quem já sabia de tudo isso deve saber também que eu tenho um outro blog, o portas em automático, que divido com o Alvaro (o meu amor) sobre as viagens e todas as outras coisas que acontecem desde que deixamos o Brasil, em janeiro de 2013. Mas lá falo por nós dois, e nem sempre cabe ser dito ali uma coisa qualquer que não represente nós dois. E como eu não sou 24h nós dois, criei isso aqui. E vai começar assim, completamente desajeitado e sem poesia, mas eu tinha que começar hoje, porque é dia primeiro de agosto e eu tenho um leve transtorno obsessivo-compulsivo com datas. Mas no resto eu sou normal.