sobre se despedir

Daqui a pouco não seremos os esbaforidos das ladeiras de Alcântara. Não seremos nós os que esperam o ônibus de mãos dadas, nem os que sorriem pro cachorro que passa na calçada. Quando um casal passar em frente ao barbeiro acendando e sorrindo, serão outros, não mais nós dois. Nem serei mais a que pede 300g de queijo edam toda semana à menina dos frios. Minha casa não será mais a casa da Maria. Não teremos mais o sofá-cama dos fins de semanas preguiçosos, nem terei mais medo de derrubar a camisa ao pendurá-la no varal da janela. E assim percorro o olhar por cada pedaço da casa, já com saudade das coisas bonitas que vivemos aqui dentro, nós dois, algumas visitas, nossos almoços no chão da sala, nossos cochilos.

Viver em Lisboa foi diferente de tudo. Não foi uma relação de amor e ódio como eu tive em Fortaleza, nem uma relação de deslumbre sem afeto que tive com Dublin. É diferente. Foi bom o tempo todo. Me senti abraçada por esse azul que preenche o céu e os azulejos. Mas vou e não vai doer. E cada vez que dou adeus a um lugar, dói menos. A gente vai mudando, nosso olhar, nosso apego. Tudo muda.

Não sei mais se ainda tenho raízes, muito menos acho que elas estão aqui. Mas talvez eu tenha deixado cair uma âncora.

Há muito tempo não sou aquela da fila do pão de açucar.

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