hoje também é meu dia

A verdade é que convivo bem com ausências. E com a sua não foi diferente. Até porque nos encontramos várias vezes depois daquele dez de julho. Era tão real, os diálogos tão possíveis, que não posso chamar de apenas sonho. Era encontro. E era fácil. Eu tinha você ali, fazendo uma reclamação possível, tendo uma conversa possível, me olhando com um olhar ora severo ora terno. E quando eu acordava e via sua rede vazia, era menos ruim, doía menos: tinha te visto há poucas horas.

Agora nossos encontros são cada vez mais raros. Agora me pego recontando histórias nossas em voz alta, pra ver se não esqueço. E com o mínimo de esforço lembro a sua voz, o sorriso, ou revejo facilmente os cabelos brancos, as mãos pra trás, a postura dura, cantarolando sempre. Tenho a memória fraca para tarefas ordinárias, mas muito forte quando lembro de nós, nossos passeios, sua paciência e sua impaciência, nós nas caminhadas, nos shoppings, você sempre muito opinioso como o homem que escolhi pra casar. Minha maior dor é essa: não conheceste o homem que escolhi pra casar. E as vezes ainda me assusto porque olho pra ele e ele me lembra você: as mãos pra trás, a postura dura, cantarolando sempre.

Hoje falei de você de novo, por acaso. Uns amigos numa mesa, surge solto o seu nome, e aí me lembro, calada, da memória mais bonita. Pouco importa a minha idade, talvez oito, talvez dezoito, eu, sempre eu, no meio dos bancos da frente do carro, tentando escolher a música, alguma que nos agrada, outra que você detesta, outra que eu reviro os olhos, mas sempre música, sempre nós, minhas ironias, nossas risadas.

A verdade é que convivo bem a sua ausência. Mas isso, nem de longe, quer dizer falta de amor. E se você estivesse aqui, nisso que chamamos vulgarmente de vida, eu dançaria a dança que tanto recusei.

Feliz dia dos filhos que sobrevivem a ausência dos pais.

jeri

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