o cheiro da blusa azul

Na escada do aeroporto pinto martins, sinto meu coração bater em todas as extremidades do meu corpo.
Tomo uma água, um café expresso, outra água. Quando o monitor avisa que o avião está pousando, penso em desistir, dou passos largos na direção contrária do portão de desembarque, sinto chover nos meus olhos. Paro, penso. Volto.
No vidro, vejo meu reflexo de quarenta anos depois da última vez que nos vimos, no aeroporto antigo, numa mesa em frente ao Palheta, nosso frescor dos vinte e dois anos, o choro solto. Ele não vai me reconhecer, ele vai aparecer nesta porta esperando a mocinha com o lenço na cabeça, penso tentando me convencer a desistir. Devíamos ter trocado fotos antes dessa loucura.
Mas não me mexo.
Não tive como não reconhecer os olhos grandes e castanhos que olhavam com curiosidade para cada senhora que aguardava seu viajante, os mesmos olhos grandes e castanhos que olhavam com curiosidade para cada parte do meu corpo, da minha pele, há tantos anos. Mas não consegui me mexer, não consegui acenar, gritar, correr para perto. Fiquei ali, parada, esperando. Até que os olhos grandes e castanhos encontraram os meus humildes olhos negros e pequenos, e imediatamente senti que ele sabia exatamente o que os meus olhos diziam para os dele. E ele veio com um sorriso nervoso e sem dizer nada me abraçou, e com meu rosto batendo no peito senti o seu coração. O cheiro do perfume sério tentava disfarçar o cheiro do corpo, mas imediatamente reconheci o cheiro que saía daquela blusa azul. Eu nunca esqueço um cheiro.
Ele toma a minha mão de um jeito meio sem jeito, meio sem graça, e saímos desajeitados do portão de entrada para pegar um taxi, que dirigir é um negócio que nunca me atrevi a aprender. Pegamos de volta a escada do aeroporto pinto martins, e senti meu coração bater em todas as extremidades do meu corpo.

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